terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Fragmento nº 3

Minhas mãos tremem tanto que eu mal consigo limpar o sangue que cobre os dedos dele. Mergulho mais uma vez sua camisa debaixo da água corrente, enquanto tento ignorar o sentimento de culpa que me sufoca. Eu não posso deixar que ele seja visto dessa forma, não quando foi tudo culpa minha!

O beco está escuro e o barulho da água escoando pelo cano que acabamos de quebrar é o único som que se faz ouvir (além de um tambor surdo martelando em meus ouvidos, mas sei que esse é apenas o meu próprio coração batendo desesperadamente). Meus olhos estão embaçados enquanto observo a água tentar sem sucesso lavar o sangue da camisa em minhas mãos. Sinto um toque suave em meu rosto e percebo que ele está limpando duas lágrimas que escaparam por meus olhos.

Eu não deveria estar chorando na frente dele e isso faz com que eu sinta uma súbta onda de irritação:

- Não me toque com essas mãos sujas de sangue! – Eu o repreendo, sentindo uma pontada de culpa por falar com ele dessa forma.

Ele não parece se ofender:

- Você se preocupa demais.

- Eu não me preocupo! Apenas reconheço que todos os atos possuem consequencias.

- Exatamente! E o que aconteceu essa noite foi apenas uma dessas consequencias. Você não deveria se culpar por isso.

- Eu não me culpo! – Respondo irritada, sabendo que é inútil negar. Ele sempre consegue saber exatamente o que estou pensando.

- Vamos embora. – Ele toma a camisa enxarcada de minhas mãos e a joga por cima de um ombro – Nem que estivesse correndo cloro puro por esse cano você conseguiria limpar essa camisa.

Fico observando por um momento, enquanto gotas avermelhadas escorrem do tecido sobre seu torso, como se fossem as lágrimas... ou pequenos córregos de ira.

- Eu não vou com você. – Respondo finalmente, ainda sem conseguir desviar os olhos das gotas ensanguentadas. – Esse o ponto final dessa estória. Não podemos nos encontrar outra vez, nunca mais.

- Essa escolha sempre foi sua.

Ele vira de costas e começa a se afastar. Fico observando sua silhueta diminuir ao longo de beco escuro enquanto uma onda de pavor cresce em meu peito. Tento me convencer de que estou apenas com medo de ficar sozinha neste lugar sinistro, ou de que é normal sentir-me dessa forma depois da cena que eu acabara de presenciar. Afinal minhas próprias mãos ainda estão manchadas e até meu rosto agora contém traços de sangue onde as lágrimas caíram.

Mas eu sei que a aflição que sinto é na verdade o medo de minhas próprias palavras, medo de nunca mais encontrá-lo de novo. Sinto uma vontade louca de gritar e pedir para que ele me espere, mas ao invés disso, apenas mergulho minhas mãos na água e tento limpar o sangue em meu rosto.

A água gelada me faz recordar os acontecimentos com uma nitidez esntonteante: a noite sem lua ou estrelas, todos os postes da rua apagados... eu batendo na porta dele e ele me observando pela janela, tentando decidir se deveria me deixar entrar outra vez. O ruído de uma risada maldosa partindo das sombras atras de mim... todo aquele sangue (mas eu estava apenas me defendendo)... tudo aconteceu tão rápido! Eu nunca imaginei que seria mesmo capaz de ferir alguém daquela forma, mas meu corpo respondia apenas aos impulsos de ira e frustração que aquela tentativa de agressão havia despertado! E então de repente eu estava de pé, tremula, observando as cinco chaves de meu chaveiro profundamente mergulhadas numa ruína vermelha e borbulhante que havia emitido uma risada há tão poucos instantes atrás...

Afasto-me do cano quebrado, percebendo que agora estou completamente ensopada. Meus pés dançam em poças dentro do tenis e minha roupa se agarra ao meu corpo como uma segunda pele gelada e inflexível. Olho em volta meio desorientada, e por alguns segundos não faço idéia nem ao menos de em que cidade estou.

Então o vejo parado, um pequena silhueta escura e imóvel no final do beco. Sinto alívio arrebatador encher meu peito e caminho em sua direção. Sem pressa, pois sei que ele está me esperando.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vários tons de vermelho

Logo no primeiro gole da taça de vinho que ele me ofereceu eu percebi que tinha alguma coisa errada. Aliás, ele havia escolhido a bebida errada pra tentar me enganar, pois conheço praticamente todos os tipos de vinhos, desde as piores sangrias às mais sofisticadas safras européias.
Por isso mesmo não levei mais de dois segundos para perceber que aquilo não se tratava de uma garrafa mais cara ou mais ordinária: tratava-se de uma taça envenenada.
Guardei a informação pra mim mesma, e, com uma satisfação redobrada, continuei bebendo. Eu havia esperado tempo demais por aquele momento e não iria dar a ele o prazer de me ver recuar ou protestar.
Aquela noite era a única coisa que me restava, a última coisa com o que eu me importava e se era assim que ele queria conduzí-la, que fosse! Eu não tinha mesmo mais nada a perder.
Saboreei cada gole daquela bebida fatal, enquanto olhava profundamente em seus olhos: pude perceber o prazer com que ele me via beber a própria morte e tive que segurar uma risada ao imaginar que ele deveria estar se sentindo a pessoa mais esperta do mundo naquele momento.
Ele me observava com o prazer de um caçador que assiste a presa caminhando para sua emboscada, eu bebia com a alegria de ter plena certeza de onde meus passos estavam me levando.
Alguns instantes depois senti que a sala onde estávamos começava a rodar. Estava finalmente acontecendo!

Tive apenas tempo suficiente para olhar no relógio da parede o minuto exato em que meu corpo caía no chão soltando seu último suspiro: onze e cinquenta e sete da noite.

****

Finalmente está tudo acabado! O corpo dela está caído a meus pés, inerte e estranhamente menos assustador.
Eu percebo que um dos cacos de cristal de sua taça perfurou seu olho esquerdo durante a queda e um arrepio atordoante percorre meu corpo.
Ainda tentando controlar minha própria respiração com a intensidade do momento, eu forço minhas mãos ainda trêmulas a afastar seus longos cabeiros loiros e observar por alguns instantes aquele rosto sem vida. O batom tem o mesmo tom de vermelho de seu vestido e o contraste com a bancura de sua pele é tão vibrante que é difícil acreditar que ela não esteja mais viva!
Suavemente e sem saber muito bem o que estou fazendo, percorro meus dedos por seu pescoço e percebo que a pele macia ainda está quente, porém sem nenhuma pulsação.
Ela já deveria saber que nunca iria conseguir de mim o que veio buscar nessa noite. Nunca deveria ter me procurado! Toda essa situação poderia ter sido facilmente evitada se ela ao menos tivesse escolhido outra pessoa pra conversar naquela festa!

Uma lágrima de alívio e desespero me escapa aos olhos e eu levo a mão à cicatriz em minhas costas para retomar a coragem que começa a me escapar.
Preciso, mais uma vez, repetir pra mim mesmo que não sou eu o monstro nessa história. Que nada disso é culpa minha. Que eu fui forçado a chegar nessa situação extrema.
Mas meus argumentos são inúteis e sinto que meus nervos começam a me vencer. Minhas pernas agora tremem tanto que eu preciso me apoiar na parede, enquanto corro até o banheiro para vomitar. Abro a torneira e deixo que a água gelada anestesie a pele de minhas mãos e rosto, me sinto tão exausto que mal posso acreditar!

Caminho até o quarto e sento na cama, tentando colocar os pensamentos em ordem. A foto de minha noiva ainda está na cabeceira e aquele sorriso confiante e alegre me provoca uma dor insuportável!
De repente tudo volta à tona em minha memória: a festa de noivado, a estranha e sensual convidada que ninguém parecia conhecer, os dois meses de perseguição, a queimadura em minhas costas, o assassinato de Daniela!
Apesar de eu saber que não provoquei nenhum desses acontecimentos, não consigo evitar a sensação de culpa. Eu não sei o que fiz para atrair sua atenção, mas deveria ter evitado tudo isso de alguma forma!
O cansaço emocional começa a me vencer e sinto meus olhos se fechando contra a minha vontade. Meu corpo se estende sobre a cama e eu cochilo por apenas alguns segundos, mas acordo com um peso sobre meu peito.

Seu olho ainda está perfurado pelo pelo cristal, mas ela não parece se incomodar com isso. Seus joelhos estão muito proximos ao meu pescoço e apesar de ela não ter nenhuma arma em sua mão eu tenho a certeza de que dessa vez ela deixará muito mais do que uma cicatriz...

***

Enquanto saio do apartamento, não posso deixar de lamentar a perda dessa oportunidade. Eu dei a ele mais chances do que a qualquer outro, porque percebi nele um potencial que há muito tempo acreditava ter deixado de existir.
Penso até em comprar um vestido preto e ficar de luto por alguns anos em sua homenagem...

Mas justamente quando estou dobrando a esquina sinto aquele aroma maravilhoso outra vez: o cheiro do amor verdadeiro. Justamente na noite em que acabo de perder um noivo!
Dessa vez não deve ser coincidencia!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Por ela

Enterrou os pés nas areia tentando, pelo menos naquela manhã, não pensar em nenhuma das coisas que precisava. A voz de sua melhor amiga ainda ecoava com suas últimas palavras: “Ser feliz é um verbo intransitivo“.

As lembranças das últimas quarenta e oito horas começaram a voltar como um carrossel girando numa velocidade vertiginosa e, antes que pudesse evitar, viu-se mergulhada naquele caleidoscópio de imagens, totalmente alheia ao mundo real a seu redor:

Estava em casa, em sua poltrona preferida, assintindo alguma coisa que não tinha a menor importância na televisão, quando Julia entrara correndo pela porta da sala, que nunca ficava trancada:
- Se arruma logo e vamos!!
Ela nem ao menos se preocupara em responder. Ja estava acostumada com as tentativas da amiga, sempre sugerindo algum programa “divertido”, algum pretexto para tirà-la de casa. Da mesma forma que Julia jà devia saber que a resposta a esses convites era sempre a mesma: Não!
- Alexandra estou falando com você! Você tem exatamente 20 minutos para se arrumar, confortavel, mas bonita. E leve um casaco leve porque vamos ficar fora até de noite.

Irritada com a insistencia de Julia, ela havia se voltado para dar um fora na amiga, mas pra sua surpresa, se viu apenas proferindo as palavras:
- Já vou.
Enquanto se arrumava, não conseguia entender o que estava fazendo. Ela quase nunca saía de casa, a menos que fosse por algum motivo muito importante. Não via o menor sentido em se arrumar, passear, andar a toa. Aliàs, não via muito sentido em quase nada, principalmente em viver.
Levou apenas dezoito minutos pra se olhar no espelho e sentir-se mais bonita do que jamais estivera na vida. Não que se achasse feia, mas normalmente tinha o hàbito de sempre achar defeitos em si mesma na hora de sair de casa.
Enquanto saíam de casa (Julia estava praticamente arrastando-a pela mão) ela lembrou-se de perguntar:
- Afinal de contas, pra onde é que estamos indo?
- Pra todos os lugares que eu sempre quis te levar.
Mais uma vez, ao invés de protestar imediatamente, ela apenas ficou curiosa:
- Nossa! Qual a ocasião? Por acaso é seu aniversário?
A amiga voltou-se pra ela com um sorriso radiante no rosto:
- Aniversário não é, mas tive três desejos concedidos essa manhã.
- Ahan... - ela comentara, cética - e quais foram esses desejos?
- Vem comigo que você vai saber.

A primeira parada foi na estação das barcas. Julia ja tinha comprado dois tickets para a barca de Paquetá e em dez minutos as duas ja estavam no segundo andar da embarcaçao, na parte aberta da lateral direita. Julia estava enconstada na murada, deixando que o vento embaralhasse seus cabelos de todas as formas que lhe aprouvesse. Ela sorria para Alexandra, que buscava abrigo do vento, sentada no branco mais próximo à porta.
- Vem pra cá ver as ondas! O dia está lindo hoje!

Alexandra pensou em responder que não queria seu cabelo ficasse parecido com um espanador, mas ao invés disso apenas se levantou e ficou ao lado da amiga.
- Você vai adorar Paquetá. A ilha é muito fofa, tranquila, e ótima para passeios em um dia ensolarado como esse. Mas a minha parte preferida mesmo é o trajeto. Essa hora e meia de barca, com vento fresco e balanço suave das ondas consegue acalmar qualquer preocupação. Me traz uma sensação de “paz dançante”!

Alexandra não discordou. Apenas concentrou-se em tentar aproveitar a tal paz dançarina, já que não tinha mesmo como escapar dali.

E o dia havia sido surpreendentemente agradàvel! As duas haviam caminhado por um parque natural, depois alugaram bicicletas e conseguiram conhecer toda a ilha em apenas uma tarde. Quando começou a anoitecer, sentaram-se pra jantar num restaurante próximo ao mar, que servia um peixe fresco delicioso!

Voltaram na última barca, às oito e meia da noite.

Durante a navegação de volta, Julia parecera cansada. Estava de pé, na proa da barca e contemplava as luzes dos navios na na Baía de Guanabara com um olhar distante e indecifrável. Após três tentativas de puxar assunto que foram totalmente ignoradas, Alexandra afastara-se um pouco da amiga, que obviamente parecia estar querendo privacidade.

A vista de dentro da baía de Guanabara à noite era simplesmente deslumbrante. O negrume da àgua refletia placidamente as luzes dos navios ancorados ao redor. A luz da lua e das estrelas parecia querer competir em beleza, numa disputa entre o natural e o artificial. A brisa morna não fazia barulho suficiente para abafar o ruído das ondas sendo cortadas pelo casco da embarcação.
Alexandra estava quase que hipnotizada, pensando no por quê nunca havia feito esse passeio antes, quando uma voz masculina a trouxera de volta para o mundo real:
- Eu só me pergunto porque é que nunca havia vindo à Paquetà antes!
Alexandra olhou para o rapaz ligeiramente assustada, por ouvir seus próprio pensamentos proferidos por uma voz masculina:
- Eu estava pensando exatamente a mesma coisa!
O rapaz soltou um sorriso simpàtico:
- Sua primeira vez também?
- Sim. Vim obrigada pela minha amiga. - Ela apontou para Julia.
O rapaz fez uma careta:
- Ela não parece muito afim de companhia no momento.
- A Julia sempre fica meio estranha perto do mar. E você? Veio sozinho?
- Não. Aniversário de um amigo.

Os dois começaram a conversar animadamente e quando perceberam a barca já estava ancorada na Praça XV e todos haviam saído. Todos menos Julia, que estava sentada em um banco, encolhida. Os dois correram em seu socorro:
- Julia, o que você tem? Tá passando mal?
- Não... ainda não! - Ela respondera, mas não parecia estar falando com a amiga.
- Vem, vamos levar ela num hospital.
- Não! - Ela agora estava falando com os dois - Estou ótima! Alexandra, ainda tem mais um lugar que eu quero te levar hoje a noite.

A próxima parada havia sido num barzinho com uma agradàvel música ambiente, na Lapa. Rodrigo havia resolvido acompanhar as duas meninas, ja que não conseguira convencê-las a ir ao hospital.
Julia participou da conversa dos dois por um tempo, bebeu duas caipirinhas e depois levantou-se da mesa pra ir dançar. Não, os dois não precisavam acompanhà-la, ela sabia que Alexandra era muito tímida pra dançar em público.

Por volta das quatro e meia da manhã ela voltou à mesa. Parecia sóbria, mas estava assustadoramente pálida!
- Acho que está na hora de eu ir pro hospital... - conseguiu dizer, antes de deixar-se cair numa cadeira.

A caminho para o hospital ela voltara a consciencia duas vezes. Alexandra estava a seu lado, enquanto Rodrigo ia apressando o motorista no banco da frente. Na primeira vez ela havia ficado consciente por quase cinco minutos e havia dito coisas que faziam pouco sentido. Dissera que seus três desejos haviam sido que Alexandra não pudesse lhe dizer “não” por um dia inteiro, que um novo amigo viesse compensar sua perda e que ela pudesse levar consigo uma parte da amiga.
Na segunda vez, mal havia abertos os olhos. Apenas dissera: “Ser feliz é um verbo intransitivo”.

Alexandra não vira mais a amiga. As horas do dia seguinte haviam escapado por entre seus dedos, num tubilhão de telefonemas, correria até a casa dos pais da amiga, perseguição de doutores pelo hospital em busca de alguma informação sobre o estado de Julia.
Apenas há duas horas atrás recebera a única notícia que não queria ouvir.

Sentada de frente para o mar Alexandra pensava “passivamente”, apenas permitindo que as ideias e emoções passeassem por seu corpo e consciencia. Lamentava terrivelmente a perda da amiga mas percebeu para sua surpresa que não se sentia infeliz.
Foi então que os delírios da amiga na madrugada anterior começaram a fazer algum sentido... Julia havia dito que levaria consigo uma parte da amiga e agora Alexandra tinha certeza de que parte fora essa: sua tristeza.

Ligeiramente desnorteada, sem saber se aquilo tudo era possivel mesmo, ela olhou para o lado e viu que Rodrigo se aproximava pela areia, trazendo uma garrafa de àgua. O brilho do sol nascendo às suas costas realçava as sombras de preocupação em seu rosto e Alexandra, sem ser capaz de chorar, sorriu.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Tela Negra

Ele já está me observando há pelos menos quarenta minutos. Sentado sozinho numa mesa no canto mais escuro do bar, ele nem sequer tocou no copo de whisky à sua frente. Me encara como se não houvesse mais nada ou ninguém a sua volta, como se eu fosse a única razão pra ele estar ali.

Esse comportamento suspeito estranhamente não me assusta. De todas as coisas que eu não consigo lembrar, sinto que ele é a mais importante. E ele parece saber disso também. Me olha como se nunca fosse perdoar o fato de eu ter esquecido quem ele é.

Todo mundo tem sido muito paciente comigo. Eles tentam me deixar à vontade e seus olhares piedosos parecem reafirmar a cada segundo que nada disso é culpa minha: o acidente, a perda da memória, tantas pessoas feridas e magoadas. Para eles eu sou a única vítima, e talvez eu seja mesmo. Mas esse estranho no fundo do bar me acusa com seus olhos, parece jogar sobre mim o peso de todas as infelicidades e injustiças dos últimos meses. E esse peso cai sobre os meus ombros como uma onda de alívio!

Meus amigos já pediram a conta e estão se levantando pra ir embora. Eu resolvo ficar. Nenhum deles protesta, em parte porque se acostumaram a nunca me contrariar, como se eu fosse uma frágil taça de cristal pronta para me estilhaçar a qualquer tom de voz mais alterado. Mas sei que eles também mal podem esperar pra se ver livres de minha companhia. Esse relacionamento de palavras não ditas e emoções reprimidas se tornou um fardo tão insuportável pra mim quanto pra eles.

Espero até que eles saiam, pego minha taça de vinho que ainda está pela metade e me dirijo com passos decididos até a mesa daquele estranho. Sento-me em silêncio na cadeira em frente a ele e tomo um gole de minha bebida.

Ele continua me encarando em silêncio por um tempo. Um silêncio pesado e cheio de cheio de eletricidade. Acho que vi uma pontada de raiva em seus olhos, mas talvez seja só minha imaginação. De qualquer forma é a primeira vez que me sinto realmente viva desde o acidente.

Estendo a mão para tomar outro gole do meu vinho, mas ele me interrompe. Sua mão pesada segura braço com um movimento brusco, derramando o resto do meu vinho na mesa. Ele não se importa com a bagunça. Nem eu.

- O que você está fazendo? – Ele pergunta. Sua voz me soa familiar, quente, feroz e dolorida.

- Não sei. – Respondo sinceramente.

- Devia ter ido embora com seus amigos. – Ele pronuncia essa última palavra com um rancor indisfarçável.

- Você me odeia.

- Sim! – ele confirma quase com um rugido de emoção.

Ficamos em silêncio. Não me sinto ameaçada ou intimidada. Talvez apenas um pouco triste.

Ele solta um longo suspiro e balança a cabeça lentamente:

- Não.

- Mas você não consegue me perdoar.

- Eu jamais teria esquecido você! Nunca! – Ele torna a me encarar. Seus olhos faíscam como um mar de acusações.

- Mas não é minha culpa...

- É SIM! – Ele grita, socando a mesa à nossa frente. As poucas pessoas ainda no bar se viram para nos olhar, sobressaltadas.

Eu me levanto e dou a volta na mesa, parando de pé ao lado dele. Seguro sua mão, que ainda está contraída com o soco e faço um discreto carinho em seu punho:

- Vem. Vamos sair daqui.

Ele se levanta, obediente. Sinto um calor quente de felicidade quando sua mão envolve a minha.

Caminhamos de mãos dadas em silencio. A noite sopra uma brisa gelada e a maioria dos postes não estão funcionando nessa parte pouco privilegiada da cidade. A rua está praticamente deserta; parece que todo mundo conseguiu encontrar um abrigo para o frio e escuridão dessa madrugada. Somos os únicos que não podemos nos abrigar, porque o inverno parece estar dentro de nós mesmos.

- Me fala sobre você – Peço, sem ter certeza de quero saber realmente.

- Não.

- Por que não?

- Você já sabe tudo a meu respeito. Eu não posso e nem quero passar por essa fase de apresentações outra vez.

- Então me fala sobre nós dois.

- Me fala você.

- Mas eu não sei! – Respondo, sentindo-me irritada e frustrada – Será que você não vê que estou tentando? Mas é inútil! Eu não lembro de absolutamente nada!

- Dane-se a merda desse passado então! –Ele pára de andar e me segura pelos ombros, me sacudindo com força – Foda-se a sua memória! Foda-se o que você lembra ou deixa de lembrar! Finge que nada nunca aconteceu! Você sempre foi boa nisso mesmo!

- Mas eu não quero fingir! Eu só estou tentando juntar os pedaços desse quebra-cabeça gigante que se tornou a minha vida.

- Pois não conte comigo pra isso! Não sou igual aos seus amiguinhos covardes! Eu me recuso a ser mais uma peça inanimada que você tenta encaixar na bagunça da sua própria cabeça. Eu tenho visto como eles se comportam perto de você: desesperados pra caber em qualquer situação que você os colocar. Eles renunciam a própria personalidade quando estão perto de você, só pra você não se sentir excluída, já que é a única que realmente não tem uma.

Antes que possa perceber o que estou fazendo sinto minha mão atingir o rosto dele, com força. Mal consigo respirar de tanta raiva. Ele fica surpreso com minha reação e olha pra mim, como se estivesse me vendo pela primeira vez:

- Então você ainda está aí dentro? – Ele pergunta em tom de provocação – Não é apenas a cabeça oca que vem fingindo ser nesses últimos meses?

- Cala essa boca!

- Senão o que? Você vai me bater de novo?

- Não! – Respondo confusa – Mas vou embora.

- E o que te faz pensar que eu me importo?

- Eu sei que você se importa!

- Sabe é? – Ele pergunta em tom desafiador – O que você acha que sabe sobre mim? Pensei que você não se lembrasse de nada.

- Eu não lembro, mas sei. Sei que você não consegue tirar os olhos de mim quando estou por perto. Sei que você está tão magoado pelo meu afastamento que isso te deixa enraivecido. Sei que o toque da minha mão consegue te acalmar...

Ele desvia o olhar. Parece estar lutando contra suas próprias emoções. Eu seguro uma de suas mãos entre as minhas e sinto seus músculos relaxarem. Uma suave onda de calor parece se alternar entre nós dois.

- Eu sei que você está frustrado porque pensa que perdemos tudo o que passou. Mas ainda temos...

Eu me aproximo e toco seus lábios levemente com os meus. Sinto meu coração disparar como se um tornado de chamas tomasse conta do meu corpo. Meus dedos ficam dormentes enquanto tudo à nossa volta parece mergulhar numa luminosidade púrpura.

- isso. – completo a frase, com um suspiro de satisfação.

Ele acaricia meu rosto com a ponta dos dedos, com um olhar de alegria e dúvida:

- Eu só me pergunto se o que nos resta é suficiente.

- É tudo o que precisamos. – Respondo, sentindo-me mais confiante a cada segundo. – Temos muito tempo pela frente para criarmos novas memórias.

Ele sorri e me abraça. O vento frio assobia em nossos ouvidos, arrastando folhas secas em pequenos redemoinhos pelo chão. A escuridão à nossa volta agora é quase total, mas eu mantenho os olhos abertos pra registrar cada pedaço dessa primeira memória que pretendo levar para o resto da vida.

domingo, 26 de junho de 2011

Senhor de Si.

Retirou a mordaça com cuidado e arriscou abrir os lábios por alguns poucos centímetros. Até ali tudo bem. Com as mãos ainda trêmulas de cansaço, fome e medo, levou à boca uma colher cheia com a deliciosa sopa e seu estômago se contorceu de dor e prazer.

As primeiras colheradas foram tímidas e cautelosas, mas então a fome que já sentia a três dias tomou o cotrole de suas mãos e ele começou a atacar o prato com ferocidade. Ele mal podia controlar o impulso de simplesmente desistir do talher e tomar todo aquele caldo com um gole só, e passaram-se alguns minutos antes que ele pudesse perceber a gravidade daquele descuido: tarde demais.


Engolira muito ar junto com a refeição e não conseguiu conter um arroto involuntário após a última colherada. Ficou apenas observando, impotente e aterrorizado, enquanto outro pedaço seu lhe escapava pela boca.

****

Tudo havia começado um ano atrás. Ele estava na mesa do seu bar preferido, com um grupo de amigos, assistindo ao jogo de seu time de futebol. Num certo momento, o time maracara um gol e ele soltou um palavrão. Porém no momento que abriu a boca, tomou um susto: dois olhos iguais aos seus haviam saído voando de seus lábios e simplesmente desaparecido no ar. Ninguém à sua volta parecia ter percebido.

Após um breve instante de imobilidade aterrorizada, ele resolveu que era hora de parar de beber e decidiu pedir uma água. Quase engasgou de susto quando fez o pedido ao garçom, porque nesse momento um par de orelhas também escapava por entre seus dentes.

Atordoado e começando a temer por sua saúde mental, ele levantou correndo e foi até o banheiro, jogar uma água no rosto.
Enquanto sentia o frescor da água gelada sobre sua pele começar a acalmá-lo seu olhar foi atraído para o espelho à sua frente e foi então que ele percebeu: seus olhos não eram mais os mesmos! Tinham mudado de cor, de formato e até mesmo de expressão! Ele, que havia se acostumado a ter olhos simples e de uma inexpressividade quase ingenua, mal podia se reconhecer através daquele par de íris azuis que o encaravam de volta e pareciam insinuar um perigo constante.

Subtamente uma ideia lhe passou pela cabeça e ele afastou os cabelos para ver suas orelhas: também estavam diferentes: além de ligeiramente menores, uma delas exibia um piercing prateado no lóbulo superior. Seria possível que...?

Ele resoveu fazer uma experiência: após verificar que não tinha mais ninguém no banheiro, voltou para a frente do espelho e pronunciou a palavra “teste”. No instate em que seus lábios se abriram para soltar o som, outra parte de seu corpo saiu flutuando com a palavra.
Imediatamente ele olhou para suas mãos: estavam maiores, um pouco mais peludas e calejadas. Os dedos grossos de aparência um tanto brutal não lembravam nem de longe os anteriores, delicados e bem cuidados, que tanta vezes haviam sido alvo de zombaria por parte de seus amigos. Aqueles, definitivamente, não eram “dedos de moça”.

Sentiu que seu assombro cedia lugar para um estranho tipo de euforia com aquela descoberta: cada vez que abria a boca, uma parte de si era modificada, ou melhor, aperfeiçoada. Era como se suas palavras, aos poucos, começassem a aproximá-lo da pessoa que sempre quis ser.

Permaneceu no banheiro por mais alguns minutos testando sua nova descoberta e quando voltou para sua mesa seus cabelos estavam mais longos e espessos, sua pele ligeiramente bronzeada e seus dentes brancos como porcelana. Nenhum de seus amigos pareceu se surpreender ou notar qualquer diferença.

No dia seguinte ele já tinha dois encontros, com mulheres que haviam praticamente se jogado nos braços dele ao final da noite anterior. Antes de sair para o cinema com a segunda e mais bonita das moças, ele tentou mais alguns “ajustes” em sua pessoa. Apesar de não poder controlar qual parte de si era modificada, ele ficou satisfeito ao perceber que conseguira tornar seu timbre de voz mais potente e “profundo”.

Foi apenas no segundo dia que ele começou a perceber que algo estava errado com aquela nova situação. Em primeiro lugar, assim que soltou um bocejo de manhã, percebeu que outra coisa saía voando de sua boca, mas dessa vez não era uma parte do seu corpo. Parecia... uma memória! Ele procurou em sua mente onde havia visto aquele jardim e aquele sorriso feminino que flutuaram na sua frente antes de se dissolver na luz do dia, mas não conseguiu se lembrar.

Ligeiramente perturbado por aquela visão, ele se revirou na cama e então percebeu que não estava sozinho: a loira da noite anterior estava a seu lado, ainda adormecida. Ele então lembrou que na verdade estava na casa dela e soltou um sorriso de satisfação.

Essa era a primeira vez que dormia com uma mulher desde seu ultimo namoro, há dois anos atrás. Seu novo “eu” havia levado apenas dois dias para fazer o que seu antigo passara um ano e meio tentando. E daí que ele perdesse algumas memórias pouco importantes no processo? Para se transformar nessa nova identidade confiante e bem sucedida, ele estava disposto a fazer qualquer sacrificio.

Ficou olhando para a moça por alguns minutos, enquanto se lembrava da noite agradável que tiveram. Ela era bonita, simpática, inteligente e tinha senso de humor. Exatamente o tipo de garota que ele vinha procurando há muito tempo.

Sentiu vontade de surpreendê-la com um café da manhã, mas quando se levantou da cama percebeu que seu corpo resitia com todas as forças à essa intenção. Ao inves de preparar o café e acordar a moça como havia planejado, ele simplesmente se vestiu e foi embora, antes que ela acordasse.

Chegou em casa sentindo-se frustrado e envergonhado por seu próprio comportamento. Precisava aprender a controlar esses impulsos que seu novo corpo queria impor. Irritado, bateu a porta soltando um palavrão e observou com um ligeiro estremecimento que outra memória escapava de sua boca.


***

Isso tudo parecia ter acontecido há milênios atrás! Um ano depois ele já havia cedido a essa nova personalidade quase que por completo. Era bem verdade que continuava se transformando cada vez que abria a boca e que nem todas as mudanças eram exatamente positivas. Mas em compensação sua vida estava muito mais animada , cheia de emoções e experiências que ele jamais teria experimentado se não tivesse abandonado sua antiga personalidade.

Decidira que algumas atitudes politicamente incorretas em troca de uma vida excitante e bem sucedida era um preço que valia a pena ser pago.

Até que, três dias atrás, ele percebera todo o peso daquela decisão.

Após uma discussão com seu melhor amigo, ele simplesmente perdera o controle sobre seus implusos! A discussão rapidamente evoluiu para uma briga e ele quebrou o nariz do amigo de infância com um soco. Quando sua namorada tentou interferir ele jogou a moça pra longe e disse algumas palavras bastante ofensivas.

Quanto mais ele cedia àquele impulso de violência, mais sentia a fúria crescendo dentro de si e resolveu que era melhor ir pra casa, antes que as coisas ficasses piores.

Caminhou em círculos por alguns segundos em sua sala, até perceber que mal reconhecia o ambiente em que estava. Nenhum daqueles móveis lhe parecia familiar, não fazia a menor ideia de quem eram algumas pessoas em seus porta-retratos, e, pra ser franco, estava bastante aborrecido com o mal gosto da decoração daquele apartamento. Não estava nem um pouco à vontade naquele lugar, que por tantos anos havia sido seu refúgio, seu lar.

Pela primeira vez ele não reconheceu o reflexo que viu em seu espelho. Havia se transformado numa pessoa completamente diferente!

Atordoado pelo choque e pelo arrependimento, ele decidiu interromper aquela transformação da única maneira que sabia: recusando-se a abrir a boca. Estava decidido a encontrar os pedaços que havia perdido de si mesmo enquanto ainda havia tempo, antes que não restasse nem a consciencia de que ele realmente perdera alguma coisa.

Sabia que a cada nova perda o caminho de volta tornava-se cada vez mais difícil e por isso ele havia optado pelo uso da mordaça. Não podia arriscar reações involuntárias. Cada pedaço que havia sobrado de si mesmo era valioso demais.

Ele agora estava exausto e perdido, mal sabia por onde recomeçar. E enquanto observava outro pedaço de si mesmo escapar daquele corpo que não era seu, percebeu que tinha muito pouco tempo.

Recolou a mordaça e, com um longo suspiro, obrigou suas mãos a pararem de tremer. Ele ainda tinha sua vontade.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fragmento n° 2

Acordo quando os primeiros raios de sol entram pelas frestas de madeira. Meu corpo está tão dolorido que mal consigo me mover, mas então percebo que não poderia mesmo: estou encolhida dentro de uma caixa de madeira.

Não acredito que aconteceu de novo!

Começo a bater com os pés e as mãos, fazendo o máximo de barulho possível possível. Não demora muito pra que eu ouça passos se aproximando. Não preciso nem ouvir a voz de quem está do outro lado, pois reconheço seu perfume imediatamente:

- Me tira daqui seu idiota!
- Você não está presa. Sabe muito bem disso.
- Mas eu não consigo me mover direito pra sair. Meu músculos estão totalmente doloridos, por causa dessa posição estúpida que eu dormi.

Ouço um suspiro impaciente e então o lençol que tampava a caixa onde estou é removido. A claridade intensa fere meus olhos e eu os fecho, enquanto sinto dois braços fortes me levantando cuidadosamente e me ajudando a colocar o pés no chão. Sinto fisgadas por todos os músculos do meu corpo enquanto tento endireitar minha postura.
Ele me segura pelos ombros e tenta fazer uma massagem, mas suas mão pesadas só fazem com que eu sinta mais dor.

- Por que você não me deixa em paz? - Reclamo, enquanto o empurro pra longe de mim.
- Tudo bem. - Ele dá de ombros e sai do quarto.

Observo o quarto à minha volta, enquanto continuo tentando alongar meu corpo: a caixa de madeira onde dormi é o único "móvel". O lençol que a cobria está agora caído no chão cinzento e gelado ao lado dela e eu percebo que é a primeira vez que o vejo. Fora isso o quarto está totalmente, absurdamente vazio.

Abro a porta e sigo pelo corredor estreito até uma pequena sala. Ele está parado perto da janela, e eu observo seus olhos muito negros perdidos no balanço das copas das árvores do lado de fora. Ele sabe que estou ali, mas não se vira pra falar comigo, o que me deixa ainda mais irritada:

- Eu odeio aquela porcaria de caixa!
- Você veio por que quis. Outra vez.
- Não sei como eu achei o caminho pra essa espelunca!
- Você sempre acha, não importa quantas vezes eu continue me mudando.
- Como se você se mudasse pra muito longe!
- Mas eu nunca te convido pra me visitar. - Ele responde, virando-se pra me encarar.

Cada centímetro da minha pele parece esquentar à medida que seus olhos percorrem meu rosto.
Eu me aproximo alguns passos, quase sem perceber que estou andando, e fico a apenas uns poucos centímetros de distância dele. Seu corpo emana um calor agradável naquela sala gelada e vazia.

- Você comprou um lençol. - Digo, olhando em seus olhos.
Ele percebe o tom de acusação em minha voz e vira de costas, mas não se afasta.
- E daí?
- Nada. Só estou dizendo que você comprou um lençol. E você nunca compra nada.
- Não preciso de nada.
- Nem do lençol.
- Mas você precisa.

Percebo pelo tom de sua voz e por um leve estremecimento em seu corpo que ele se arrependeu dessa ultima frase. Isso me faz sentir um pouco melhor.

- Vou embora então.- Digo, virando de costas e me afastando em direção à porta.
- Não volte. Eu não estarei mais aqui.
- Vai se mudar de novo?
- Vou.
- Ta bom, não vou voltar.
- Mas vai me procurar de novo. - Percebo que ele está caminhando em minha direção.
- Não vou.

Começo a abrir a porta mas ele a fecha de novo, com um movimento brusco.
Fico imprensada entre ele e a porta. Sua respiração tão próxima de minha pele que eu não consigo evitar um arrepio.

- Você precisa parar de me procurar, está entendendo?
- Acha que eu não sei disso? Acha que eu gosto de acordar naquela caixa idiota?
- Então por que você simplesmente não pára de vir atrás de mim?
- Eu não consigo! Não sei o que acontece! Por que você não pára de abrir a porta pra eu entrar?
- Não posso!
- Não pode me deixar do lado de fora por uma noite?
- Não.
- Não pode porque tem medo que me aconteça alguma coisa, ou não pode porque não consegue me recusar? - Pergunto com um sorriso malicioso.
- Pára com essas perguntas idiotas!
- Eu acho que é um pouco das duas coisas.

Passo um de meus braços em volta de seu pescoço e acaricio de leve sua boca com a outra mão. Sinto que ele estremece, mas não se afasta.
- Você não estava indo embora?
- Foi você que fechou a porta.

Me aproximo mais e encosto meus lábios nos dele. Ele responde imediatamente, com um beijo quase desesperado.
Seus braços envolvem o meu corpo com uma mistura de avidez, desejo e carinho, e eu sei que ele deve ter se controlado a manhã inteira - e a noite passada - para não me tomar nos braços antes.

O beijo vai ficando cada vez mais suave, até que nossas respirações parecem estar sincronizadas. É simplesmente a sensação mais maravilhosa do mundo eu eu começo a me perguntar porque não fazemos isso com mais frequência!

Então, exatamente enquanto estamos mergulhados nesse momento de perfeita harmonia e prazer, ouço o leve ruído do ponteiro no relógio de pulso dele. Um calafrio gelado e dolorido percorre meu corpo com a velocidade de um relâmpago e eu instintivamente o empurro pra longe.

- Eu não posso. Sinto muito.
- Eu sei.

Ele tenta não passar nenhuma emoção em sua voz, mas seus olhos parecem experimentar uma dor mil vezes maior do que a do calafrio que acabei de sofrer.

Abro a porta e saio correndo, mesmo sabendo que ele não virá atrás pra tentar me impedir.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Música e efeito

Encaixei o fone nos ouvidos e aumentei o volume pela segunda vez no dia. Imediatamente todas as minhas preocupações e culpas pareceram se extinguir ou tornar-se pequenas demais.

Aquela musica era meu único prazer real, a única coisa que me fazia sentir realmente viva. A medida que as notas musicais iam tocando meus tímpanos eu sentia suas ondas sonoras espalharem-se por cada célula, cada neuronio, cada órgão, mergulhando meu corpo num absoluto estado de leveza e prazer. Fechei os olhos e me permiti entregar compleamente, dissipando o último resquicio de culpa com um sorriso de indulgencia: "é só uma música inocente".

No fundo eu sabia, ja tinha percebido a muito tempo, que aquela música era mais perigosa do que aparentava ser...

A primeira vez que a ouvi foi numa festa de fim de ano. A casa estava lotada, um som ambiente preenchia o lugar num volume moderado, algumas pessoas dançavam, outras conversavam à meia voz. Estávamos todos esperando pelos fogos da meia noite.
Não sei dizer exatamente como aconteceu, mas lembro apenas que num certo momento da noite um estranho DJ chegou ao local. Ele usava suéter, calça e chapéu pretos, luvas num vermelho bem escuro e - o mais estranho de tudo - uma mascara de tecido fino, na mesma cor das luvas, sem nenhuma abertura para olhos, nariz, nada!
O Dj caminhou até o palco sob os olhares curiosos dos convidados e, sem dizer uma palavra, retiriu do bolso um pequeno cd com a etiqueta "Música 8". Nomento em que a música começou a tocar a festa pareceu ganhar nova vida: as cores ficaram mais vibrantes, as pessoas mais alegres e até mesmo a força da gravidade parecia mais suave. Assistir aos fogos de artíficio, à meia noite, tendo com trilha sonora aquela música, foi uma das experiências mais incríveis que eu já vivera até então.
Depois disso eu nunca mais consegui ir a outra festa em que aquela música não tocasse pelo menos umas tres vezes na noite. Os finais de semana eram aguardados com avidez e celebrados com euforia. Cada vez que ouvia a "Música 8" era como se eu estivesse reencontrando uma velha amiga, ou voltando a um refúgio pacífico que eu não visitava há muito tempo.
Aos poucos passei a não aguentar mais a espera pelas festas de final de semana. A vida com a Música 8 era tão leve e bela que os problemas do dia a dia pareciam mil vezes mais pesados e insuportáveis quando eu retornava aos dias "normais".

Foi então que eu procurei o DJ daquela primeira festa, o único que tinha o estranho aparelho onde a música conseguia ser reproduzida. Parecendo a versão tamanho família de um Ipod normal, a geringonça pesava cerca de dez quilos e tinha trinta centimetros de comprimento. Pra funcionar precisava estar conectada à internet e cada vez que eu quisesse ouvir a música, uma "pequena taxa de utilização" era automaticamente debitada da minha conta. A saída de som podia ser ligada tanto à caixas amplificadoras quanto à fones de ouvido, mas carregar aquele trambolho na bolsa, como se fosse um MP3 player estava fora de cogitação pra mim! Pelo menos à principio...

Com o "Player 8" em casa, foi apenas uma questão de tempo até que eu perdesse o controle sobre a música. Quando dei por mim já estava ouvindo a Música 8 quase que diariamente e nos dias que não a ouvia ficava de mau humor ou deprimida. Uma boa parte do salario do meu mes era reservada para a taxa de utilização da Música 8, pois na minha opinião o prazer que ela me causava era muito maior do que o de comprar qualquer outra coisa. Alias, programas como cinema, teatro, sair com os amigos, etc. aos poucos pararam de me interessar. Eu preferia passar meus dias de folga em casa, mergulhada no prazer sensorial daquela melodia.

Eu nunca fui um pessoa burra e sabia exatamente o que estava acontecendo comigo. Sabia que a musica estava tentando me dominar e desde o principio eu já desconfiava que um produto vendido por um ser tão estranho quanto aquele DJ mascarado não poderia mesmo ter boas intenções. Mas mesmo assim eu continuei ouvindo cada vez mais aquela versão moderna do "canto da sereia", porque a sensação era tão boa que valia a pena!
Não vou aqui me estender pela lista de inconveniencias que a Música 8 me causou, porque para cada uma dessas inconveniencias ela me proporcionava horas de prazer que recompensavam à altura; mas lembro perfeitamente do motivo pelo qual senti pela primeira vez vontade de abandonà-la: saudades da vida. Saudades de prazeres mais reais, provocados não apenas pelas reações organicas que a musica me causava, mas pelas proprias experiencias em si. Saudades das alegrias espontaneas.
O único problema é que as alegrias espontaneas são muito incertas e a Música 8 era garantia de felicidade imediata. Eu amava a Música 8 e não fazia nenhum sentido me livrar dela. A vida iria continuar acontecendo e todos os dias eu me convencia de que era besteira me sentir culpada por ouvir uma simples música de vez em quando. Eu permaneceria relação de dependencia, amor e medo com a Musica 8 por muito, muito tempo...

Encaixei o fone nos ouvidos e aumentei o volume, pela segunda vez no dia. Imediatamente todas as minhas preocupações e culpas pareceram se extinguir ou tornar-se pequenas demais.

E então, envolvida por aquela sensação negligente de paz, eu sonhei: Uma figura parecida com o DJ da Musica 8 vinha em minha direção, mas suas roupas eram completamente brancas. Ele se aproximou de mim e, sem nenhuma palavra, removeu os fones que estavam em meus ouvidos, jogando-os para tão longe que se perderam de vista. Eu então removi com cuidado a másacara branca que cobria seu rosto e não senti nenhuma surpresa ao ver que aquela era eu mesma.

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