terça-feira, 3 de outubro de 2017

Lógica temporal

Nós sempre achamos que ele era muito ansioso e ele sempre nos garantiu que isso não era verdade.

“Vocês é que não sabem perceber quando as coisas terminam! ” Ele insistia.

Nem eu, que era o melhor amigo dele, acreditava nessa justificativa. Mas também! O cara parecia nunca entender como o tempo no mundo normal funcionava! Desde criança, ele tinha mania de levantar pra aplaudir as peças de teatro bem antes do final – às vezes no meio de um diálogo! 

Levantava do cinema pra ir embora bem no meio dos filmes, trocava de estação de rádio num momento totalmente aleatório da música que ele alegava ser sua preferida, levantava da mesa de pôquer bem no meio de uma partida – muitas vezes quando estava ganhando!

Com o tempo, poucos de nós ainda tínhamos paciência para sair com ele. A maioria ficava aborrecido ou morrendo de vergonha das suas... excentricidades.

Mas agora que eu paro pra pensar, digamos assim, “à luz dos acontecimentos”, dá pra perceber que o problema dele não era exatamente ansiedade. Os sinais estiveram sempre ali.

Em primeiro lugar ele nunca, nunquinha mesmo usou um relógio. Até o do telefone celular ele deu um jeito de deixar todo doido! E outra coisa curiosa: às vezes ele também demorava pra perceber quando as coisas começavam. Desde jantares, onde volta e meia ele simplesmente ignorava o prato que estava à sua frente (muitas vezes saía do restaurante sem comer e reclamando de fome), até algumas coisas bem mais difíceis de se confundir, como por exemplo, shows musicais, aulas importantes (em que ele era o professor!) e até algumas das entrevistas que ele às vezes cedia para jornalistas. Ficava sempre com aquele olhar perdido de quem tava esperando alguma coisa.

 Mas a melhor de todas foi a vez que a namorada dele virou na frente de todo mundo no bar e começou a chorar, dizendo que não aguentava mais, que o amava muito, mas que tinha que terminar o namoro. Acho que nunca vi um olhar mais espantado na cara de uma pessoa em toda a minha vida! Ele se virou pra ela, com a mais genuína das surpresas e perguntou: “A gente tava namorando?? ” A coitada soluçou mais alto ainda e saiu correndo enquanto ele murmurava um “me desculpe”, ainda estupefato!

A gente devia ter percebido alguma coisa nesse dia.

Eu continuava amigo dele porque sabia que ele não fazia por mal. Cada um tinha suas esquisitices e essa era a dele. Mas os momentos que a gente se encontrava na mesma “lógica temporal” era simplesmente mágicos! Eu nunca conheci uma pessoa que fosse, ao mesmo, tempo um ouvinte tão atento e um orador tão genial!

Quando eu desabafava com eles sobre os problemas da minha vida ele ouvia com tanta atenção, tanta sensibilidade e tanta inteligência que eu saía da conversa mais aliviado do que se tivesse, de fato, resolvido o problema.

E quando ele falava... ele não era mais esquisito. Ele simplesmente... sabia! Não é que ele simplesmente conhecesse muito bem o tópico em questão – o que também era o caso, para todos os tópicos que eu pudesse imaginar – mas ele sabia. Eu nunca tive certeza exatamente do quê, e muitas vezes me achei bobo imaginando que ele sabia do infinito.

Mas ele nunca quis saber do infinito! Ele queria saber do mundo, da vida! Desse mundo onde ele nunca se encaixou e dessa vida que ele nunca realmente entendeu. Ou será que só ele foi quem entendeu de verdade?
...
Hum... quer saber? Eu tinha muito mais coisa pra falar sobre ele, mas acho que essa última frase era exatamente a hora que ele levantaria, aplaudiria discretamente, e iria embora.

Vamos segui-lo!

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